Criança que ronca: quando o barulho à noite pode estar afetando o dia?

Publicado em

Criança que ronca: quando o barulho à noite pode estar afetando o dia?

Seu filho ronca enquanto dorme? Entenda quando o ronco infantil pode indicar dificuldade para respirar, quais sinais aparecem durante o dia e quando procurar o pediatra.

A casa está silenciosa.

A criança dormiu.

E, do quarto, começa aquele barulhinho que algumas famílias até acham engraçado:

“Ele ronca igual ao pai.”

Uma noite durante uma gripe pode não significar muita coisa.

Mas quando uma criança ronca repetidamente, noite após noite, a história muda.

O ronco acontece quando existe estreitamento das vias respiratórias superiores durante o sono e o ar encontra dificuldade para passar. Em algumas crianças, ele pode ser apenas um ronco habitual; em outras, pode acompanhar distúrbios respiratórios do sono, incluindo a apneia obstrutiva do sono. 

E o detalhe mais importante talvez aconteça quando a criança já acordou.

Porque dormir respirando mal pode aparecer durante o dia como:

irritação, hiperatividade, dificuldade para prestar atenção, cansaço ou queda no rendimento escolar. 

Às vezes, portanto, a pergunta não é apenas:

“Por que meu filho ronca?”

É:

“Ele está realmente descansando enquanto dorme?”

Criança roncar é normal?

Roncar ocasionalmente durante um resfriado, quando o nariz está bastante congestionado, é diferente de uma criança que ronca de forma frequente.

A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que o ronco habitual não deve ser considerado normal na infância e na adolescência, especialmente quando acontece de maneira recorrente. 

Isso não significa que toda criança que ronca tenha uma doença grave.

Também não significa que toda criança que ronca tenha apneia.

A própria SBP estima que aproximadamente 10% das crianças ronquem, enquanto apenas uma parcela apresenta apneia obstrutiva do sono. 

Ou seja:

roncar não é sinônimo de apneia.

Mas roncar com frequência é um motivo para prestar atenção em como a criança está respirando durante o sono.

Afinal, de onde vem o ronco?

Quando dormimos, os músculos da garganta relaxam.

Se o espaço disponível para a passagem do ar fica estreito, o fluxo de ar pode fazer vibrar estruturas da garganta, produzindo o som característico do ronco.

Nas crianças, algumas das causas e fatores associados mais importantes são:

  • aumento das amígdalas;

  • aumento da adenoide;

  • obstrução nasal;

  • rinite;

  • excesso de peso;

  • algumas alterações craniofaciais;

  • determinadas condições neurológicas e neuromusculares.

Amígdalas e adenoide aumentadas estão entre as causas mais comuns de obstrução das vias aéreas durante o sono na infância.

Por isso, o barulho não é o problema em si.

O que importa é descobrir por que o ar está fazendo barulho para passar.

O que é a apneia do sono infantil?

Na apneia obstrutiva do sono, a passagem do ar fica parcialmente ou completamente bloqueada repetidas vezes enquanto a criança dorme.

A respiração pode diminuir ou parar por alguns instantes e depois retornar.

Esses episódios podem fragmentar o sono e prejudicar sua qualidade, mesmo que a criança não acorde completamente ou não se lembre de nada na manhã seguinte. 

É justamente aí que surge uma diferença importante:

uma criança pode passar dez horas na cama e ainda assim não ter tido dez horas de sono realmente reparador.

Como perceber uma pausa na respiração?

Alguns pais descrevem uma sequência parecida com esta:

A criança ronca.

O barulho para.

Por alguns segundos, parece que não existe respiração.

Depois vem um suspiro, engasgo ou uma inspiração mais forte — e o ronco recomeça.

Essa alternância entre ronco, pausas e retomadas da respiração pode ocorrer na apneia obstrutiva do sono.

Outros sinais noturnos que merecem atenção incluem:

  • sono muito agitado;

  • respiração pela boca;

  • despertares frequentes;

  • engasgos ou ruídos de sufocamento;

  • esforço aparente para respirar;

  • posições incomuns para dormir;

  • urinar na cama depois de já ter adquirido controle urinário.

Um vídeo curto feito pelos responsáveis durante um episódio pode ser útil para mostrar ao pediatra como a criança está dormindo, embora não substitua a avaliação ou os exames quando necessários. A própria SBP cita registros do sono feitos pela família como informação que pode auxiliar a investigação. 

E se a criança roncar, mas parecer dormir profundamente?

Dormir sem acordar completamente não garante que o sono esteja adequado.

A criança pode apresentar pequenos despertares e fragmentação do sono sem ficar consciente deles.

Por isso, alguns dos sinais aparecem apenas na manhã seguinte.

E aqui existe uma diferença interessante entre crianças e adultos.

Um adulto que dorme mal frequentemente reclama:

“Estou morrendo de sono.”

Na criança, o sinal pode ser quase o oposto.

Criança com sono ruim pode ficar hiperativa?

Pode.

Alterações respiratórias durante o sono podem estar associadas a:

  • hiperatividade;

  • irritabilidade;

  • dificuldade de concentração;

  • alterações de comportamento;

  • prejuízo no desempenho escolar;

  • cansaço;

  • sonolência durante o dia;

  • dor de cabeça pela manhã. 

Por isso, uma criança que parece estar “ligada no 220” nem sempre está demonstrando excesso de energia.

Em algumas situações, aquele comportamento pode coexistir com um sono insuficiente ou de baixa qualidade.

Isso não significa que ronco seja a explicação para toda desatenção ou hiperatividade.

Mas significa que, diante de problemas de comportamento ou desempenho, perguntar como a criança dorme também pode ser importante.

Ronco pode atrapalhar a escola?

Quando existe um distúrbio respiratório significativo do sono, sim.

O cérebro infantil precisa de sono adequado para processos como atenção, memória, regulação emocional e aprendizagem.

A SBP destaca associação entre ronco e apneia com alterações cognitivo-comportamentais, incluindo dificuldade de foco, hiperatividade e prejuízo no rendimento escolar. 

Isso cria uma situação curiosa.

À noite, o sintoma é:

ronco.

Durante o dia, a queixa pode ser:

“Ele não presta atenção.”

E talvez ninguém associe uma coisa à outra.

Respirar pela boca durante o sono é normal?

Pode acontecer temporariamente quando a criança está resfriada ou com o nariz congestionado.

Quando a respiração pela boca é habitual, porém, vale investigar.

A adenoide fica na região posterior do nariz e pode, quando aumentada, dificultar a respiração nasal. A SBP destaca que a obstrução crônica provocada pela adenoide pode favorecer respiração oral, ronco e, em algumas crianças, apneia durante o sono. 

Outros sinais podem aparecer junto:

  • boca frequentemente aberta;

  • nariz constantemente obstruído;

  • voz anasalada;

  • boca seca;

  • sono inquieto.

O objetivo não é simplesmente ensinar a criança a “fechar a boca”.

É descobrir por que respirar pelo nariz está sendo difícil.

Amígdalas grandes significam que a criança terá apneia?

Não.

Amígdalas e adenoide aumentadas são fatores importantes, mas tamanho não é diagnóstico.

Muitas crianças possuem essas estruturas relativamente grandes sem apresentar apneia.

A American Thoracic Society ressalta exatamente essa diferença: embora hipertrofia das amígdalas ou adenoide seja uma causa comum de obstrução infantil, nem toda criança com aumento dessas estruturas apresenta apneia do sono.

É necessário correlacionar:

anatomia + sintomas noturnos + repercussões durante o dia + exames, quando indicados.

Excesso de peso também interfere?

Pode.

O excesso de peso e a obesidade estão entre os fatores de risco para apneia obstrutiva do sono em crianças e adolescentes. 

Mas é importante não reduzir o problema ao peso.

Crianças magras também podem apresentar apneia, especialmente quando existe obstrução pelas amígdalas e adenoide ou outros fatores anatômicos.

Da mesma forma, nem toda criança com obesidade terá distúrbio respiratório do sono.

Novamente, o conjunto dos sinais é o que direciona a investigação.

E a rinite?

Rinite e congestão nasal podem contribuir para piora da respiração durante o sono.

Quando o nariz permanece obstruído, a criança tende a respirar mais pela boca e pode apresentar maior resistência à passagem de ar.

Isso não significa que tratar rinite resolva todos os casos de ronco ou apneia.

Mas controlar doenças nasais pode fazer parte do tratamento em crianças selecionadas. A SBP inclui o tratamento medicamentoso de condições como rinite alérgica entre as possíveis abordagens, de acordo com a causa e a gravidade do quadro. 

Meu filho ronca só quando está gripado. Preciso investigar?

Ronco temporário durante uma infecção respiratória é diferente de ronco habitual.

Um nariz congestionado pode produzir ruído enquanto a criança dorme.

Nesse caso, a tendência é que o ronco desapareça quando a infecção e a obstrução melhorarem.

O que merece mais atenção é um padrão como:

a criança está bem, sem resfriado, mas continua roncando em muitas noites.

Também vale procurar orientação quando o ronco é acompanhado por pausas respiratórias, esforço para respirar ou repercussões durante o dia.

Mais importante do que uma noite isolada é observar a frequência e a persistência.

Existe uma frequência considerada preocupante?

Na prática, o pediatra procura diferenciar o ronco ocasional do ronco habitual ou recorrente.

A American Academy of Pediatrics recomenda que crianças e adolescentes sejam questionados sobre ronco durante o acompanhamento pediátrico, justamente porque ele pode ser a porta de entrada para identificar apneia obstrutiva do sono.

Portanto, se a resposta à pergunta:

“Seu filho costuma roncar?”

é claramente “sim”, vale levar essa informação à consulta.

Não é necessário esperar que as pausas respiratórias sejam óbvias.

Como o pediatra investiga?

A investigação começa pela história.

Perguntas importantes incluem:

  • a criança ronca quantas noites por semana?

  • desde quando?

  • existem pausas respiratórias?

  • ela dorme de boca aberta?

  • o sono é muito agitado?

  • acorda durante a noite?

  • sua muito enquanto dorme?

  • mudou o comportamento durante o dia?

  • existe sonolência?

  • houve queda no rendimento escolar?

  • apresenta rinite ou obstrução nasal?

  • as amígdalas são aumentadas?

  • houve mudança de peso?

  • ainda urina na cama?

O exame físico também pode avaliar nariz, boca, amígdalas, crescimento, peso e características das vias aéreas.

A partir daí, o pediatra decide se é necessário encaminhamento ou investigação complementar.

Um vídeo feito em casa consegue diagnosticar apneia?

Não.

Ele pode ser muito útil.

Pode mostrar ronco, esforço respiratório, pausas ou posições incomuns durante o sono.

Mas um vídeo não mede várias informações necessárias para determinar se existe apneia e qual sua gravidade.

Ele funciona como uma pista, não como diagnóstico.

Se houver indicação, o médico pode solicitar um exame específico do sono.

Para que serve a polissonografia?

A polissonografia é o principal exame utilizado para diagnosticar apneia obstrutiva do sono e avaliar sua gravidade.

Durante uma noite de sono, são monitoradas diferentes funções do organismo, como respiração, oxigenação, frequência cardíaca e outras variáveis relacionadas às fases do sono.

A SBP considera a polissonografia o exame padrão para diagnóstico da apneia do sono em crianças, e a American Academy of Pediatrics recomenda o exame quando existe ronco associado a sinais ou sintomas compatíveis com apneia. 

Isso também permite responder a uma pergunta que o barulho sozinho não consegue:

quanto a respiração está realmente sendo afetada?

Toda criança que ronca precisa fazer polissonografia?

Não necessariamente.

A indicação depende do quadro clínico e do nível de suspeita.

A avaliação médica ajuda a definir quando o exame é necessário e quando outras abordagens podem ser consideradas.

Em alguns casos, a criança pode ser encaminhada para pediatra especializado em sono, pneumologista pediátrico ou otorrinolaringologista, dependendo dos achados.

Portanto, perceber o ronco não significa automaticamente sair da consulta com um pedido de polissonografia.

Significa que a respiração durante o sono entrou na investigação.

Se houver apneia, sempre precisa operar?

Não.

O tratamento depende principalmente da causa e da gravidade.

Quando existe apneia associada a aumento importante de amígdalas e adenoide, a cirurgia para remoção dessas estruturas pode ser uma das principais opções de tratamento. A diretriz da American Academy of Pediatrics considera a adenotonsilectomia tratamento de primeira linha em crianças com apneia e hipertrofia adenotonsilar quando não existem contraindicações. 

Mas existem outras possibilidades, conforme o caso:

  • tratamento da rinite;

  • manejo do peso quando necessário;

  • acompanhamento clínico;

  • CPAP;

  • outras abordagens direcionadas à causa da obstrução. 

Por isso, ronco não significa cirurgia.

O diagnóstico vem antes da escolha do tratamento.

O que é CPAP?

O CPAP é um equipamento que envia ar com pressão positiva através de uma máscara durante o sono.

Essa pressão ajuda a manter as vias aéreas abertas.

Pode ser indicado em situações específicas, por exemplo quando a cirurgia não é apropriada ou quando a apneia persiste mesmo após tratamento cirúrgico. 

Sua utilização em crianças exige acompanhamento especializado para adaptação e definição adequada da pressão e da interface.

Melhorar a rotina de sono resolve o ronco?

Uma boa rotina de sono é importante para todas as crianças.

Horários regulares, ambiente adequado e quantidade suficiente de sono ajudam na saúde e no desenvolvimento.

A SBP cita recomendações de duração de sono que variam conforme a idade — chegando, por exemplo, a 10 a 13 horas por dia para crianças de 3 a 5 anos e 9 a 12 horas para aquelas de 6 a 12 anos, incluindo cochilos quando aplicável.

Mas existe uma diferença fundamental:

higiene do sono melhora as condições para dormir. Não remove uma obstrução das vias respiratórias.

Uma criança pode ter horário perfeito para ir à cama e ainda assim respirar mal durante a noite.

Quantidade e qualidade precisam ser consideradas juntas.

Quando procurar o pediatra?

Converse com o pediatra principalmente quando perceber:

  • ronco frequente;

  • pausas na respiração;

  • engasgos ou suspiros durante o sono;

  • respiração habitual pela boca;

  • esforço para respirar;

  • sono muito agitado;

  • despertares frequentes;

  • urinar na cama persistentemente ou voltar a urinar depois de já ter parado;

  • sonolência excessiva;

  • irritabilidade;

  • hiperatividade;

  • dificuldade de concentração;

  • queda no desempenho escolar;

  • dores de cabeça pela manhã.

A SBP ressalta justamente que sintomas noturnos e diurnos precisam ser considerados conjuntamente na investigação da apneia infantil. 

E quando a dificuldade para respirar exige atendimento rápido?

Uma coisa é investigar uma criança que ronca habitualmente.

Outra é uma criança apresentando dificuldade respiratória importante naquele momento.

Procure atendimento de urgência diante de sinais como:

  • dificuldade intensa para respirar;

  • coloração azulada ou acinzentada nos lábios ou na pele;

  • pausas respiratórias prolongadas;

  • dificuldade importante para despertar;

  • alteração significativa do estado de consciência.

Nessas situações, não é apropriado aguardar uma consulta de rotina para investigar ronco.

A prioridade é avaliar a respiração da criança.

Talvez o problema não seja o barulho que ela faz. É o descanso que ela não consegue ter.

Quando um adulto ronca, o incômodo costuma ser percebido por quem divide o quarto.

Quando uma criança ronca, existe uma tendência de tratar o som como algo engraçado:

“Parece um adulto dormindo.”

Mas a criança não deveria precisar fazer esforço extra para respirar enquanto descansa.

E talvez os primeiros sinais de que algo não vai bem nem apareçam no quarto.

Eles podem surgir:

na escola,

no humor,

na atenção,

no comportamento,

no cansaço.

Por isso, quando o ronco acontece de maneira frequente, vale contar ao pediatra.

Não porque toda criança que ronca tenha apneia.

Mas porque o sono também faz parte da consulta pediátrica — e respirar bem é parte fundamental de dormir bem.

A pergunta, então, deixa de ser apenas:

“Meu filho ronca muito?”

E passa a ser:

“Enquanto ele dorme, está conseguindo respirar e descansar como deveria?”


Agende sua consulta!